quarta-feira, 2 de julho de 2008

Trabalho 5

A Cartomante – versão de Rita

(Gabriel Couto, Gabriel Augusto, Fábio Henrique, Luis, Thiago, Eustáquio, Jhônatas, Erasmo, Eduardo e Wadson Assis - 203)

Pessoas gostam de julgar os sentimentos alheios. Inveja, é óbvio, afinal de contas, só porque reencontrei meu verdadeiro amor. Reencontrei é só uma maneira de dizer, pois nunca em verdade o tinha conhecido, até encontrar Camilo, meu príncipe encantado, é bem verdade que não era tão encantado assim: sua beleza não era do tipo em que se possa estribar, mas o que lhe faltava em beleza lhe sobejava em inteligência e simpatia. O mesmo não acontecia com Vilela. Sempre o olhar frio. Sempre as atitudes gélidas; tão concentrado em fazer justiça aos homens que se esqueceu de exercer justiça ao seu próprio coração. Todo dia a mesma frieza:

_Bom dia, Rita.

_Bom dia, eu respondia, sempre seguido de uma pergunta do tipo “Vamos passear hoje na pracinha, Vilela?”

_Não, ele respondia. Simples assim. Não. Sem explicações ou justificativas. Só não. Esse não se tornou uma pedra na minha sandália. Talvez tenha sido por esse inescrupuloso e insensível não que eu o deixe de amar, se é que eu o amei algum dia de verdade.

Um dia, Vilela decidiu largar a magistratura e abrir uma banca de advogado. Nos mudamos da província onde morávamos e fomos morar em uma casa lá para os lados de Botafogo. Quem lhe arranjou foi Camilo, um velho amigo de infância seu; Vilela sempre falava dele para mim. Mal sabia eu que minha alma haveria de se enamorar pela dele.

Ao tornarmos posse da casa, ele veio nos receber. Depois de Vilela ter me falado tanto a respeito dele, passei a imaginá-lo. De repente a porta bate e eu vou atendê-lo. Ao abrir a porta, espantei-me. Idealizei-o tanto que ,pensando em mim mesma disse: “_Pensei que fosse mais alto! Poderia ao menos ser bonito!”

Apesar do susto, recuperei-me rapidamente e, em seguida, com um certo ar de ironia, estendi-lhe a mão e exclamei-lhe:

_É o senhor? Não imagina como seu marido é seu amigo: falava sempre do senhor. Ele permaneceu calado. Aparentemente não me deu muita atenção. Estava concentrado em rever o velho amigo de infância. Era natural depois de tanto tempo. Observei como eles se olhavam com ternura. Verdadeiramente eram muito amigos. Camilo, ao contrário de Vilela, era moralmente ingênuo. Talvez tenha sido isso o que mais me chamava atenção a princípio.

Camilo passou a freqüentar nossa casa. Freqüência trouxe convivência e convivência trouxe intimidade.

Poucos dias depois morreu a mãe de Camilo. Vilela se dispôs a cuidar do enterro e do inventário. Eu me empenhei-me a dar-lhe apoio emocional. Foi a partir daí (como, ou quando,eu não sei) que passei a ter a certeza de que o amava.

Gostava de passar as horas ao lado dele. Ele estava com o coração ferido e doente. Eu me senti na responsabilidade de ajudá-lo.

Percebi o quanto éramos compatíveis. Líamos os mesmos livros, passamos a ir juntos a passeios e a teatros. Todas as noites jogávamos damas e xadrez. Ele mesmo foi quem me ensinou. Eu sempre joguei mal. Percebi que ele, para me ser agradável, jogava um pouco menos mal, embora ele mesmo não se dava conta de que o tinha percebido.

Um dia, chegou-se uma encomenda lá em casa no nome de Vilela: era uma bengala. Pensei em mim mesma se Vilela estaria se preparando antecipadamente para a velhice, mas a idéia me soou tão absurda que fui obrigada a tirar a limpo:

_Vilela, que bengala é essa que você encomendou?

_É para o aniversário de Camilo.

_Que dia?

_Hoje.

Por curiosidade perguntei, e para meu desespero obtive a resposta. O que faze? Como obter um presente em tão pouco tempo?

O vento do destino então parece soprar a meu favor: um menino vendedor de cartões, passava na rua. Apressadamente comprei-lhe um cartão, respirando aliviada. Foi enviado junto ao presente de Vilela. Palavras simples, mas de coração.

Pouco tempo depois, repentinamente, Camilo passou a visitá-nos raramente, até que suas visitas cessaram.

Cheia de preocupações, medos, dúvidas e desconfianças, corri a uma cartomante, para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Ela restituiu-me a confiança.

No dia seguinte, consegui me encontrar com Camilo. Contei-lhe o que tinha acontecido. Ele riu de mim. Respondi-lhe:

_Ria, ria. Os homens são assim: não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era .Apenas começou a botar as cartas, disse-me: “A senhora gosta de uma pessoa...” Confessei que sim,e então ela continuou botar as cartas. Combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo que você se esquecesse,mas que não era verdade...

_Errou! Me interrompeu, rindo.

_Não diga isso. Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua cousa. Você sabe: já lhe disse. Não ria de mim, não ria...

Camilo pegou-me pelas mãos, olhou para mim séria e fixamente. Jurou que me queria muito, que meus sustos pareciam de criança: em todo caso, se eu tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois me repreendeu; disse-me que era perigoso andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...

Eu lhe disse que tive muita cautela ao entrar na casa.

_Onde é a casa? Me perguntou.

_Aqui perto, na rua da Guarda Velha: não passava ninguém nessa ocasião. Descansa: eu não sou moleca.

Camilo riu outra vez e me disse:

_Tu crês deveras nessas coisas?

_Há muita coisa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se você não acredita, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhará tudo. A prova é que eu estou tranqüila e satisfeita.

Ele poderia ter sido mais compreensível, afinal de contas eu me arrisquei por ele. Mas não importa, independentemente da opinião dele eu fui contente para casa.

Camilo recebeu mais cartas anônimas, tão apaixonadas que só podiam ser de alguém pretendente, é obvio.

Apesar disso, Camilo temia que o anônimo fosse ter com Vilela e eu concordei com a possibilidade. Para lhe acalmar um pouco disse:

_Bem, eu levo os sobrescritos para comparar a letra com a das cartas que lá apareceram; se alguma for igual, guardo-a e a rasgo...

Nenhuma apareceu. Daí a algum tempo, Vilela, Além da frieza habitual, começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Me apressei em dizê-lo a Camilo, e deliberamos juntos a respeito. Minha opinião era de que ele deveria tornar a freqüentar nossa casa, sondar Vilela, para ver se conseguia algo. Camilo discordou; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denuncia. Deveríamos ter mais cautela, separando-nos por algum tempo. Combinamos os meios de nos correspondermos, em caso de necessidade, e nos separamos com lágrimas.

Ao chegar na porta da casa. Mas e se Camilo estiver razão? Esta história de destino, intuição, cartomante, for apenas uma crendice maluca?

Bem, eu vou entrar mesmo assim. Ao entrar fiquei surpresa: Vilela, com um revolver na mão apontado para mim. Perguntei-lhe assustada o que era aquilo. Ele me respondeu com um disparo. Atônita, sentei-me sobre o canapé, sob o impacto do projétil. Contemplei a face de Vilela por alguns instantes, pensei no que tinha feito a ele. Tarde de mais. Contemplei-o até não poder contemplá-lo mais. Por um breve instante perguntei-me o que o destino me reservava.

E de repente, a escuridão... o esquecimento...

Um comentário:

souza da silva disse...

oi,professor, tudo bem?sou guilherme fui aluno do renato no vida nova e hoje faço arquitetura na ufsj ,gosto de fazer poemas tenho um blog gostaria que o senhor desse uma olhada se chama :
As desventuras dos maus poemas
.deste já um abraço